como contar uma mentira
é uma arte contar uma mentira tão boa que as pessoas queiram ser verdade.
A mentira é vilipendiada, muitas vezes, injustamente.
Quanto nos mentimos, com os mais vívidos detalhes, mesmo que de maneira inconsciente? Imaginamos com nitidez ter recebido certa notícia ou ter vivido algo em determinadas circunstâncias. Mas essas memórias-relâmpago, que gravam em nossa mente as cenas de eventos sensíveis, nem sempre correspondem à realidade.
Mentir também é o trabalho de quem escreve. “O poeta é um fingidor”, escreveu Pessoa. “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”, abrandou Quintana. Ficcionistas são mentirosos com aval, digo eu mesmo.
Ainda há casos em que mentir se faz necessário pela mais humana das razões: tirar o seu da reta.
Então, considero uma utilidade pública mostrar a arte da lorota, que usei em histórias como se encontrar este homem, fuja e negócio de família. Quando a mentira é boa o bastante, ela se torna uma verdade em si mesma.
Você descobrirá a seguir:
e ainda tem novidade na Newslenta!
o ponto de partida certo
Digamos que você se atrasou para o trabalho. Toda pessoa honesta, nesse caso, mentiria sobre o fato de que desligou o despertador sem querer.
Aí está a primeira lição: a arte da mentira começa na escolha do momento divergente mais adequado. Ela não nega de todo a realidade, como quem contesta o próprio atraso, mas apenas reescreve o não registrado.
“Olha, atrasei porque um cavalo me atropelou.”
A beleza da mentira está na simplicidade. Na vida dos brasileiros, o aleatório é via de regra. O momento divergente, portanto, não precisa de explicação para existir. Quanto mais você tenta justificá-lo, mais estranha é a reação.
— Como assim, tem uma fábrica de cavalos na sua rua?
Pensando na escrita ficcional, não vejo necessidade de justificar por A mais B o mundo em que a história existe. É preciso confiar no seu universo, aceitar que ele simplesmente existe e tocar a partir daí.
a carne da mentira
O momento divergente é o esqueleto da mentira, duro e funcional. Então, você o envolverá com as carnes que darão vida ao causo.
O objetivo é desviar a atenção do momento divergente e ir acrescentando detalhes que façam as pessoas torcerem pela continuidade do relato.
“Olha, atrasei porque um cavalo me atropelou. Tava eu no ponto de ônibus, no horário de sempre, ouvindo o último da Rosalía no fone, aí do nada sinto um empurrão no ombro que me jogou no chão. Olhei no susto achando que era assalto, mas era um cavalo cinza a galope, com o lombo todo machucado. Fiquei até com pena do bicho. Deve ter fugido de maus tratos, sabe? Uma senhora que tava ali por perto me ajudou a levantar. Por sorte não me machuquei, só que cai em cima de um cocô de cachorro, bem aqui na parte de trás da calça, parecia que tinha me cagado. Voltei correndo pra casa trocar de roupa e nisso meu ônibus passou. Só consegui pegar o próximo…”
O importante é manter a história andando. A mentira tem perna curta, mas vai longe quando se equilibra em movimento.
o respeito às próprias regras
Mentir não é desculpa para esculhambar. Sim, devemos falar de coerência interna, ou verossimilhança.
Se em nosso cenário o cavalo cinza virasse para trás e pedisse perdão em bom português, a paciência dos ouvintes acabaria aí. Isso porque estamos trabalhando com elementos da realidade comum, embora conectados de um jeito, digamos, criativo.
A ficção é mais permissiva em relação à natureza dos elementos, desde que sejam coerentes.
Não mude as regras no meio da partida. Jogar uma carta +4 no Uno não quer dizer que a outra pessoa deva ficar de quatro, por mais divertido que pareça.
Lembre-se: no jogo da mentira, você ganha enquanto os demais toparem a brincadeira.
novidade
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Hora do pitaco! Para você, o que faz uma boa mentira?
Mais lidos de 2025:
Obs.: também rolam umas verdades por aqui, como nos dois textos mais lidos do ano.
playlícia
A música em 2025 foi muito melhor do que eu esperava, especialmente para a música latino-americana. DtMF foi o disco mais ouvido no Spotify global, com justiça, e nomes como Mon Laferte, Natalia Lafourcade e Gaby Amarantos também brilharam com ótimos lançamentos.
Isso e muito mais está na playlist O som de 2025, com tudo que me marcou no ano.
vi por aí
As fotos acima mostram que alguém, não direi quem, foi influenciado pelo figurino de O Agente Secreto e percorreu todos os brechós da cidade. Daí minha alegria ao ler o texto da Carina Rufino sobre as mensagens presentes nas roupas do filme.
O novo disco da Rosalía me encontrou na minha fase mais interessada pelo misticismo. Uma pessoa maravilhosa para falar sobre ambos os assuntos é a Paula Carvalho, que me abriu os olhos e os ouvidos ao escrever sobre as referências místicas do Oriente em LUX.
Reafirmo meu compromisso de em 2026 continuar levantando a conversa do combate à violência contra as mulheres com os caras que me acompanham. Para isso, estou atento. Tenho acompanhado a Cris Fibe aqui no Substack e no Instagram. Por lá, também me chamou a atenção o post da Bianca Santana sobre a experiência de redução da violência doméstica em Uganda.
“Aliado não nos sobrecarrega com a tarefa de sua própria aprendizagem e letramento”, “sabemos o quanto atrapalha um marmanjo parado no meio da cozinha dizendo ‘se precisar de ajuda é só falar’ enquanto mexemos uma panela com uma criança no colo”, deu a letra a Mãe de Zé. Bora ler o que as mulheres estão produzindo e ter mais iniciativa nas tarefas, rapaziada.
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Um abraço do Chris







viva as lorotas e nós, loroteiros!
"A beleza da mentira está na simplicidade" jamais foram ditas palavras mais verdadeiras.