20h14. exatamente.
às vezes, é melhor não saber...
— Vinte horas e quatorze minutos. Exatamente — repetiu a cigana.
— E não diz aí a data, um dia da semana que seja?
— As cartas só revelam o que você precisa saber.
Caio logo se arrependeu da pergunta. A cigana fez o papel dela, ué. Ideia besta essa de querer saber a hora da própria morte.
A resposta o balançou, agitando uma série de novas dúvidas. Vinte horas e quatorze minutos não parecia um bom horário para morrer. Se caísse em dia útil, então, trabalharia à toa. Fosse às seis da manhã, a morte o pouparia do trabalho. Ou, ainda mais cedo, ela o encontraria dormindo.
Ele, conscientemente ou não, começou a girar a vida em torno da hora fatídica. Jantar? Somente a partir das 20h15, para não correr o risco de engasgar. Marcar programas perto desse horário também evitava, ou poderia sofrer um acidente no caminho.
Todos os dias, por um minuto inteiro, Caio parava o que estava fazendo e esperava. Enfim o alívio, mesmo que momentâneo. Sentia-se imortal por algumas horas, até a dúvida o acordar na manhã seguinte.
Para não faltar com a verdade, diga-se: ele também se pegava ansiando o badalar dos sinos. Sempre que tinha um novo projeto no escritório ou ficava preso em uma reunião, contava os segundos para 20h14.
O fato é que Caio viveu o bastante para pensar que a morte divide as pessoas, definindo-as conforme as escolhas de cada qual. Dar seu melhor porque vai morrer ou dar seu pior porque, independentemente, vai morrer também? Essa questão o encarava diante do espelho e, com o passar dos anos, o que ele via era alguém indo ao encontro da morte.
A virada de chave ocorreu por motivos bem menos filosóficos. Caio odiava trabalhar. Mas, desde que consultou a cigana, vinha trabalhando pela chegada da hora final. Então entendeu o que as cartas lhe disseram ao não oferecerem a resposta completa à pergunta dele. A morte que o encontrasse.
Caio morreu exatamente às 20h14, enquanto atravessava a rua. Carro… não. Foi atacado por um leão fugido do circo que passava pela cidade. Isso nem as cartas poderiam prever.
Agora pergunto aos internautas: o que você faria se soubesse a hora, mas não o dia?
amigo do peito
Hans é uma figura. O cara largou a Alemanha por amor a uma brasileira e vem aprendendo português num ritmo impressionante. Tenho o ajudado com algumas dúvidas e, de vez em quando, ele solta uma pérola. Expressões costumam ser um desafio para ele. Outro dia, disse que caiu no conto do viado. Antes disso, encontrou alguém que era lobo em pele de velha. Aí ontem me perguntou:
— Por que brasileiro gosta de amigo com teta? — imagine o sotaque alemão.
— Amigo com teta?! Onde você ouviu isso?
— Vocês sempre fala “quem tem amigo tetudo”.
playlícia
Estou irremediavelmente forrozeiro desde que comecei a fazer aulas de dança. Daqui até 20h14, a playlícia terá apenas essa temática, começando pela trilha sonora da Festa Junina, já que estamos na época. Boas festas!
vi por aí
O que fazer quando a morte se torna cada vez mais presente?, indaga a Carolina Bataier (parece mórbido, mas só achei que combinava com a edição).
“É preciso injetar vida no envelhecimento”, escreve a Adélia Jeveaux em A grande fúria do mundo.
Isso me lembra de que envelhecer tem gosto de abacaxi.
Para mudar de assunto, às vezes a Fernanda Castro fala que grama é fascista.
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Um abraço do Chris



A criatividade das newsletters é muito acolhedora. Adorei a anedota do alemão, e fico imaginando que desastre é viver a vida sabendo a hora da morte. Cruzes. Hahaha
Bom!